Como evento, COP30 deixou a desejar

Apesar da relevância global do evento, múltiplos problemas logísticos e estruturais em Belém geraram frustração e críticas, indicando que a organização ficou aquém do esperado

🔎 Foco da notícia 🔎

  • Foi a primeira vez que a COP foi realizada na região amazônica, reforçando seu papel central nas discussões globais.
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  • A COP30 aborda temas cruciais como financiamento climático, revisão das NDCs, adaptação, proteção de florestas, bioeconomia e transição energética.
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  • As falhas na estrutura e logística do evento revelam um contraste entre a importância política da COP30 e os desafios encontrados na sua execução.

Marcada como a primeira Conferência das Partes sediada na Amazônia, a COP30 — realizada de 10 a 21 de novembro de 2025, em Belém do Pará — carregava forte expectativa internacional. A escolha da capital paraense tinha peso simbólico e político: levar ao centro do debate climático global a maior floresta tropical do mundo, com foco em soluções baseadas na natureza, bioeconomia, proteção de povos indígenas e justiça climática.

No entanto, apesar da relevância geopolítica e do conteúdo das negociações, a organização do evento passou por dificuldades significativas que comprometeram a experiência de delegações, trabalhadores e visitantes.

Há uma semana, a Organização das Nações Unidas (ONU) cobrou ao governo brasileiro uma reação rápida para solucionar falhas de segurança e problemas estruturais. A demanda foi feita em uma carta enviada pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) a Rui Costa, ministro da Casa Civil (que coordena as atividades relacionadas à cúpula), e a André Corrêa do Lago, presidente da conferência.

No documento, o secretário-executivo Simon Stiell relata que a tentativa de invasão ocorrida na noite de terça-feira, quando um grupo estimado em 150 ativistas entrou no pavilhão, deixou feridos, causou danos e expôs “brechas graves” no controle do evento.

O texto descreve ainda uma série de vulnerabilidades, entre elas estavam: Portas sem monitoramento, contingente de segurança abaixo do necessário e ausência de garantias de resposta rápida das forças federais e estaduais.

A ONU também chamou atenção para problemas de infraestrutura: calor excessivo em pavilhões, falhas de climatização, infiltrações provocadas pelas chuvas e riscos associados a água próxima de instalações elétricas.

A preparação da cidade para receber um dos maiores eventos multilaterais do mundo foi questionada desde o início. Durante a COP30, alguns problemas se destacaram:

Saneamento e mobilidade

Delegações relataram dificuldades com alagamentos em áreas próximas aos pavilhões, falhas de coleta de lixo e transporte sobrecarregado. O fluxo internacional pressionou uma infraestrutura urbana historicamente limitada.

Segurança e episódios de tensão

Foto: Ronaldo Brito/Globo Amapá

No dia 11, a Zona Azul — área restrita onde ocorrem as negociações oficiais — foi invadida por manifestantes. O episódio levou a ONU a enviar uma carta classificando a situação como “falhas graves de segurança”, exigindo plano emergencial e medidas corretivas.

Estrutura dos pavilhões

Relatos de goteiras, queda no fornecimento de água e ar-condicionado insuficiente tornaram-se comuns, com delegados descrevendo a experiência como desconfortável, especialmente diante do forte calor amazônico, que ultrapassava 30°C. Após reclamações públicas, a presidência da COP afirmou que os problemas estavam sendo corrigidos.

A forte tempestade que atingiu Belém na tarde de 17 de novembro provocou uma série de transtornos em diferentes pontos da cidade e expôs fragilidades na infraestrutura montada para a COP30, no Parque da Cidade.

As rajadas de vento foram tão intensas que parte da cerca de proteção que conecta a área Blue à Greenzone acabou cedendo. Em um dos acessos, a água invadiu o carpete, e lixeiras precisaram ser improvisadas para conter as goteiras. Já na saída da BlueZone, muitos visitantes aproveitaram para pegar os guarda-chuvas distribuídos pela prefeitura.

Em nota, a organização da COP30 reconheceu falhas pontuais na estrutura, sobretudo nos pavilhões, e informou que equipes técnicas estão atuando nos reparos e ajustes para garantir o pleno funcionamento das instalações.

A tenda que servia como barreira contra o mau tempo também não resistiu à força do vento e acabou desabando durante a tempestade.

Incêndio expôs a fragilidade da organização

Outro acontecimento que arranhou a imagem da organização foi um incêndio mobilizou equipes de segurança na Blue Zone da COP30,  na tarde de quinta-feira (20).

A Zona Azul, principal espaço da Conferência do Clima, é onde países montam seus stands para divulgar projetos e iniciativas. A área, que abriga as negociações oficiais entre delegações internacionais e tem acesso restrito, foi evacuada após o início das chamas em um dos pavilhões, próximo ao estande da China.

A organização da Conferência do Clima disse que o fogo foi controlado em aproximadamente seis minutos e que 21 pessoas receberam atendimento médico. Entre os casos, 19 estiveram relacionados à inalação de fumaça e dois à crise de ansiedade. Doze pessoas tinham sido liberadas no começo da noite.
De acordo com Celso Sabino, ministro do Turismo, o fogo foi controlado rapidamente pelo Corpo de Bombeiros do Pará e não houve registro de feridos. As causas do incidente ainda não foram identificadas.

Por fim tentou minimizar as falhas da organização em função do evento ser realizado na região Norte do país.  “Esse princípio de incêndio poderia acontecer em qualquer lugar do planeta. A população de Belém não aguenta mais esse tipo de preconceito”, declarou.

Hospedagem: preços abusivos dominam o debate

Um dos temas mais sensíveis foi o custo da estadia em Belém:

Foto: Rafael Medelima / COP30

Hotéis e anfitriões de plataformas como Airbnb e Booking foram acusados de multiplicar tarifas por até dez vezes. Com isso, Justiça do Pará, Defensoria Pública e Governo Federal notificaram estabelecimentos e exigiram ajustes. As plataformas se comprometeram a remover anúncios com valores exagerados e limitar preços a no máximo três vezes a alta temporada.

Apesar das medidas, os resultados foram irregulares:

  • Algumas hospedagens realmente reduziram preços em até 50%.
  • Delegações de países mais pobres relataram que ainda tinham dificuldade de encontrar acomodações acessíveis.
  • Algumas equipes consideraram reduzir o número de participantes ou até não comparecer.
  • Soluções alternativas surgiram, incluindo estadias em igrejas, casas comunitárias e embarcações.

O Ministro do Turismo chegou a afirmar que o mercado “se autorregulou”, mas a percepção geral entre participantes foi de que o problema não foi totalmente solucionado.

Alimentação caótica na Zona Verde

O primeiro dia da COP30 já expôs outro gargalo: a falta de alimentos nos quiosques da Zona Verde, destinada ao público geral e a atividades culturais.

Foto: Diogo Schelp/VEJA

Sanduíches, coxinhas e snacks acabaram antes das 15h, o que fez muitos visitantes recorrerem a sorvetes e doces como “almoço”.

Além disso, preços considerados abusivos — como fatias de bolo por R$ 25 — geraram novas críticas. Por segurança, a organização proibia entrada com alimentos externos, aumentando a frustração. Estabelecimentos fecharam as portas por não terem estoque ou funcionários suficientes.

Enquanto isso, na Zona Azul, onde circulam delegações oficiais, a oferta de comida era maior e mais diversificada, gerando sensação de desigualdade entre participantes.

Trabalhadores terceirizados em condições indignas

Funcionários responsáveis pela limpeza dos pavilhões da COP30 relataram:

  • Proibição de comer na praça de alimentação após o início do evento.
  • Refeições feitas no chão, ao lado de banheiros.
  • Falta de local adequado para descanso.
  • Banheiros sem refrigeração, com sensação térmica muito alta.
Imagem: Hélen Freitas/Repórter Brasil

Auditores fiscais do Ministério do Trabalho classificaram a situação como incompatível com o propósito da conferência. Empresas contratadas foram cobradas a providenciar estruturas adequadas, mas muitos trabalhadores afirmaram que as melhorias não haviam sido implementadas.

Entre simbolismo e execução falha

Apesar de seu papel central na discussão climática global e do peso de ocorrer na Amazônia, a COP30 se tornou um exemplo de como desafios logísticos podem comprometer um evento diplomático dessa magnitude.

Por um lado, as negociações avançaram em temas essenciais e reforçaram a urgência da ação climática.
Por outro, as falhas operacionais — desde hospedagem cara e desorganização alimentar até condições precárias de trabalho e problemas de segurança — deram o tom das críticas.

A COP30 entrará para a história tanto pelo cenário amazônico quanto pelos alertas deixados sobre a importância de planejamento, infraestrutura e respeito aos participantes e trabalhadores em eventos internacionais de grande escala.

Pilares da agenda climática

A COP30 ocorre dez anos após o Acordo de Paris, em um momento decisivo para revisar metas climáticas e acelerar ações concretas para limitar o aquecimento global a 1,5°C. Entre os temas centrais discutidos estavam:

• Financiamento climático
Países em desenvolvimento cobraram o cumprimento — e ampliação — das promessas financeiras feitas por nações ricas. O impasse sobre valores, prazos e mecanismos de desembolso continuou sendo um dos maiores entraves nas negociações.

• Revisão de NDCs (planos nacionais de ação)
Os países deveriam apresentar metas atualizadas de redução de emissões. A avaliação de organizações internacionais é de que a ambição coletiva permanece abaixo do necessário para conter a crise climática.

• Adaptação e resiliência
Houve debate sobre métricas globais de adaptação e sobre como apoiar regiões vulneráveis a incêndios, enchentes, ondas de calor e outros eventos extremos que vêm se intensificando.

• Proteção das florestas e bioeconomia
Por estar na Amazônia, a conferência deu destaque à conservação florestal, aos direitos territoriais de povos indígenas e às cadeias produtivas sustentáveis baseadas na biodiversidade.

• Transição energética justa
O avanço da eliminação progressiva dos combustíveis fósseis voltou a gerar embates, com países exportadores resistindo a compromissos mais rígidos.

Apesar da densidade da pauta, a COP30 enfrentou críticas de falta de clareza nos caminhos práticos para implementação das metas acordadas.

Para muitos, a avaliação final é clara: como encontro político, a COP30 foi decisiva; como evento, ficou aquém do esperado.

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