Rosa, mas não para todos
Se você assistiu a alguns jogos da Copa do Mundo, provavelmente teve a mesma sensação: parecia que todos os jogadores estavam usando a mesma chuteira rosa.
Não é impressão.

Pela primeira vez em um Mundial, Nike, Adidas, Puma, New Balance, Skechers e outras fabricantes lançaram praticamente ao mesmo tempo coleções em tons de rosa fluorescente. Cada marca deu um nome diferente à cor — Electric Fuchsia, Solar Turbo, Poison Pink ou Flamingo —, mas o resultado foi o mesmo: um gramado tomado pelo rosa.
A coincidência tem explicação.
Em 2024, a consultoria internacional WGSN e a Coloro apontaram o Electric Fuchsia como uma das cores que dominariam a moda em 2026. As fabricantes incorporaram a tendência quase simultaneamente em suas coleções para a Copa.
Mas não foi apenas uma decisão estética.
O rosa oferece o maior contraste possível com o gramado. Em um esporte cada vez mais consumido por telas de celular e vídeos curtos, ele faz os pés dos jogadores aparecerem instantaneamente em qualquer imagem. Cada drible, chute ou comemoração vira uma peça publicitária involuntária para as marcas.
Existe ainda um fator psicológico.
Executivos da Nike afirmam que atletas associam cores vibrantes à autoconfiança e à sensação de protagonismo. Para uma Copa do Mundo, onde cada lance pode entrar para a história, isso faz diferença.
Há inclusive um aspecto funcional pouco comentado: como a competição acontece durante o verão de Estados Unidos, México e Canadá, cores claras e vibrantes absorvem menos calor do que modelos totalmente pretos, oferecendo um pequeno ganho de conforto aos atletas.
Os rebeldes do rosa
No entanto, nem todo mundo aderiu.

Lionel Messi continua usando uma edição especial da Adidas nas cores branco e azul-claro, inspirada na bandeira argentina. Christian Pulisic também preferiu um modelo personalizado.

Cristiano Ronaldo é um caso interessante. Enquanto diversos atletas patrocinados pela Nike receberam o pacote rosa “Breakout“, o português estreou sua sexta Copa usando uma chuteira dourada criada especialmente para celebrar sua trajetória no Mundial.
James Rodrigues, atacante da Colombia é outro craque usando cores diferentes da maioria, alternando modelos da New Balance em tons dourados e verdes assim como o brasileiro Neymar Jr. que entrou em campo com modelos exclusivos da Puma

Esses jogadores parecem seguir outra lógica.
Quando sua imagem já vale bilhões, a necessidade de acompanhar uma tendência diminui. Eles próprios se tornaram a tendência.
E os árbitros?
Curiosamente, quem permanece completamente fora dessa onda são os árbitros.
Enquanto os jogadores transformaram as chuteiras em plataforma de comunicação das marcas, a arbitragem continua presa ao princípio da neutralidade.
Historicamente, os árbitros utilizam chuteiras pretas ou predominantemente pretas para evitar qualquer elemento que possa chamar mais atenção do que suas decisões. A função do árbitro é ser percebido pela autoridade, nunca pelo estilo. A própria estética da arbitragem segue um código visual de discrição, em contraste com o espetáculo protagonizado pelos atletas.
O contraste resume bem o momento do futebol.
De um lado, jogadores que funcionam como outdoors ambulantes das grandes fabricantes.
Do outro, árbitros cuja credibilidade depende justamente de não parecerem parte do espetáculo.
Quando todo mundo faz igual…
Talvez exista uma ironia nessa Copa.

As marcas investiram milhões para fazer suas chuteiras se destacarem. Só que todas escolheram praticamente a mesma cor.
O resultado foi exatamente o oposto: a padronização.
Especialistas em branding já apontam que, ao eliminar a diferenciação entre as marcas, o rosa acabou tornando os produtos menos identificáveis à primeira vista.
Fotos: Divulgação