Louis Vuitton transforma desfile SS27 em espetáculo imersivo com praia cenográfica

Com onda de 8 metros, cascata de água, areia e coro gospel ao vivo, a marca transformou a apresentação SS27 em uma experiência imersiva e altamente visual

🔎 Foco da notícia 🔎

  • A Louis Vuitton levou o conceito de passarela-espetáculo a outro patamar em seu desfile SS27, sob direção criativa de Pharrell Williams.
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  • A praia criada para o desfile remete às grandes ambientações da Chanel, especialmente à passarela de 2018 no Grand Palais, quando Lagerfeld construiu uma praia completa para apresentar a coleção.
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  • A apresentação contrapôs roupas formais ao universo praiano e teve como inspiração o Ebony Beach Club, espaço criado em 1957 para famílias negras na Califórnia.

A Louis Vuitton levou o conceito de passarela-espetáculo a outro patamar em seu desfile SS27, durante a Paris Fashion Week. Sob direção criativa de Pharrell Williams, a marca construiu uma ambientação grandiosa, com uma onda de 8 metros de altura, cascata de água, areia no chão e um coro gospel ao vivo. O resultado foi uma experiência visual que rapidamente ganhou as redes sociais e dividiu a atenção do público entre a coleção e o cenário.

Os convidados acompanharam a apresentação descalços, enquanto os modelos atravessavam a passarela em meio à areia e à água. Em cena, apareceram ternos, gravatas, camisas e bolsas de couro, criando um contraste direto entre a formalidade da alfaiataria e o imaginário descontraído da praia.

A proposta resgata uma tradição muito associada a Karl Lagerfeld, especialmente ao desfile primavera/verão 2019 da Chanel, apresentado em outubro de 2018. Na ocasião, o estilista transformou o Grand Palais, em Paris, em uma praia completa, com areia real, ondas artificiais, píeres de madeira e cabanas de veraneio.

Ao longo de sua trajetória, Lagerfeld consolidou a ideia de que um desfile de luxo não deveria apenas exibir roupas, mas criar um universo próprio. Supermercados, aeroportos, foguetes espaciais, estações de trem e praias inteiras se tornaram parte da narrativa visual das coleções da Chanel, muito antes de os cenários instagramáveis virarem uma ferramenta estratégica de marketing.

A praia criada por Pharrell para a Louis Vuitton dialoga diretamente com esse legado. Embora a tecnologia, a escala e o contexto cultural sejam outros, a lógica é semelhante: transformar a apresentação em uma experiência imersiva, capaz de gerar imagens memoráveis para além das peças exibidas na passarela.

O desfile também sinaliza um movimento mais amplo da indústria de luxo. Depois de um período marcado por apresentações mais discretas e minimalistas, as grandes marcas parecem retomar o interesse por eventos monumentais, pensados para ocupar o imaginário coletivo e circular com força nas plataformas digitais.

Entre os itens que mais chamaram atenção na coleção estão os tênis Louis Vuitton SS27 Combi, que repercutiram pela semelhança com modelos associados à estética da Vans. Mas o ponto central da apresentação esteve na tensão entre o cenário e o vestuário.

A praia, tradicionalmente ligada ao lazer, ao descanso, à liberdade e à informalidade, foi ocupada por modelos vestidos em alfaiataria. A imagem de homens trajando roupas formais em um ambiente de areia e água criou um efeito quase surrealista, como se códigos corporativos fossem deslocados para um espaço de descontração.

Nesse movimento, Pharrell parece menos interessado em representar a cultura do surfe de forma literal e mais em reinterpretá-la dentro dos códigos da Louis Vuitton. A praia apresentada no desfile surge filtrada pela estética do luxo, com seus símbolos, materiais e estruturas de desejo.

A escolha visual provoca uma leitura ambígua. De um lado, entrega uma imagem potente e altamente compartilhável. De outro, reforça uma característica recorrente da moda de luxo contemporânea: a capacidade de transformar manifestações culturais em linguagem de mercado, muitas vezes suavizando ou remodelando parte de seus sentidos originais.

Ainda assim, a coleção carrega uma referência histórica relevante. A inspiração parte do Ebony Beach Club, criado em 1957 por Silas White, na Califórnia. Em um período marcado pela segregação racial nos Estados Unidos, o espaço foi idealizado para oferecer às famílias negras um ambiente sofisticado de lazer à beira-mar.

A partir dessa referência, a praia deixa de ser apenas um elemento cenográfico e passa a carregar uma discussão sobre pertencimento, acesso e ocupação de espaços. O litoral, frequentemente tratado pela moda como símbolo universal de liberdade, ganha no desfile uma camada social mais específica.

Pharrell reforçou essa leitura ao falar sobre dândis modernos que surfam. A menção ao dandismo amplia a interpretação da coleção e se conecta à tradição do Black Dandyism, movimento em que a elegância se torna uma ferramenta de resistência, autoafirmação e construção de identidade diante de estruturas historicamente excludentes.

Com o desfile SS27, a Louis Vuitton entrega uma apresentação visualmente impactante, atravessada por referências culturais, históricas e estéticas. Entre homenagem, espetáculo e debate, Pharrell recoloca a passarela no centro da conversa — não apenas como vitrine de produto, mas como palco de narrativa, imagem e disputa simbólica.

Fotos: Reuters e Getty Images

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